Métodos de Alfabetização
Rubens Portugal
De vez em quando, penso como eu gostaria que me vissem: eu gostaria que me vissem como alguem que procura descobrir a causa da causa da causa. Assim, se alguem inventar de me dar algum presente, ja sabe o que eu mais aprecio...
Isso vem a proposito da polemica da alfabetizac?o. Corri e comprei a terceira e ultima edic?o do livro do Capovilla, ?Alfabetizac?o, metodo fonico?. (Memnon Edic?es Cientificas). Mergulhei e senti que a discuss?o esta aquecida para alem da temperatura razoavel.
Na setima pagina da apresentac?o, o leitor fica sabendo que ha tres contendores na arena: o antigo metodo alfabetico-silabico (o avo do metodo fonico), o metodo construtivista (Emilia Ferreiro) e o metodo fonico. Neste momento da batalha, os defensores do metodo fonico afirmam que o fracasso brasileiro e culpa dos construtivistas.
Investigac?o
Procurando as causas das causas das causas, vejo diversas causas para o nosso fracasso no processo de alfabetizac?o. N?o da, portanto, para atribuir toda a catastrofe aos construtivistas.
Ha oitenta ou cem anos atras, os brasileiros eram muito melhor alfabetizados do que agora? Sim. Em 1920, o Estado de S?o Paulo ? que tinha a melhor educac?o publica ? so atendia 28% da demanda. Essa minoria (muito bem alfabetizada) tinha como professores pessoas das classes letradas que educavam criancas oriundas tambem das classes letradas. O metodo provavelmente era o da velha cartilha, que adotava o avo do fonico, ou seja, o metodo alfabetico-silabico. ?Provavelmente?, repito, porque ninguem pode ter certeza de qual metodo estavam empregando em 1906, por exemplo. E possivel que cada alfabetizador tivesse la os seus segredos.
Dentre as muitas causas esta justamente uma das poucas vitorias que podemos alardear agora, em 2006: ha vagas para todas as criancas. E preciso lembrar que em 1981 tinhamos sete milh?es de criancas que nem chegavam perto de qualquer tipo de escola. Isso foi ha 25 anos. E, naquele mesmo ano, a Unesco se espantou porque n?o tinhamos pre-escola. Ent?o, nestes ultimos 25 anos so pudemos cuidar da quantidade de vagas. Um notavel esforco quantitativo, e n?o qualitativo, porque n?o seria possivel trocar o pneu do onibus em movimento.
O metodo construtivista ? de verdade ? deve ter sido adotado em poucas escolas, principalmente particulares, pois s?o as que conseguem fazer experimentos duradouros, com continuidade.
Muito antes de se ouvir falar em Emilia Ferreiro, ja se estava pregando, no Brasil, a alfabetizac?o que deveria partir de paragrafos complexos e completos, alegando que as criancas seriam possuidas pelo sentido do texto antes de tentar decifrar o codigo das letras. Essa foi mais uma das causas das causas. E isso n?o se chamava construtivismo. Dizia-se que ensinar vogal por vogal era coisa muito mediocre, anacronica.
Qual a causa mais culpada?
Talvez a presunc?o de querer ser moderno sem antes preparar professores para essa miss?o t?o importante. Talvez. Mas penso que ninguem esta em condic?es de afirmar nada de forma definitiva ou radical, pois esse e um daqueles fenomenos que tem muitas e fugidias causas.
Conhecendo e trabalhando com professores alfabetizadores, raramente encontrei algum que fosse realmente profundo conhecedor do construtivismo. Discursos, sim, encontrei muitos. Sem fundamento. Por isso, n?o penso que podemos culpar nenhuma das correntes, estilos, metodos. Quando a porta da sala de aula se fecha, ninguem sabe qual o metodo que sera usado. Provavelmente, e aquele com que a alfabetizadora foi alfabetizada. So se minha avo era construtivista.
E doutor em Planejamento e Aplicac?es Militares, professor do curso de pos-graduac?o em Gest?o de Assuntos Publicos da PUC?PR, consultor, palestrante e pesquisador.