Por detrás daquela porta
Cesar Augusto Dionisio
Uma frase de Mark Twain, que n?o me sai da cabeca desde que conheci, aceita uma breve traduc?o como ?Aparentemente, n?o existe nada que n?o possa acontecer hoje?. O escritor americano deposita, assim, em nossas m?os, nosso proprio destino. Ja que aparentemente tudo pode acontecer hoje, devo descobrir qual a minha contribuic?o nas coisas que comigo acontecem. Lembro ainda que a rota de uma vida inteira se relaciona indireta e intimamente as decis?es que tomamos no cotidiano. Um dia por uma vida e uma vida por um dia.
E neste mapa de incertezas, acertar ou errar pode ser uma quest?o de ponto-de-vista, uma quest?o entre fazer ou n?o fazer, aceitar ou n?o aceitar, uma quest?o bem localizada no dilema de reclamar ou lamentar. O mesmo dilema entre abrir ou n?o portas.
Observando bem de perto as palavras ?reclamar? e ?lamentar?, uma distinc?o clara me chega a mente depois de uma reflex?o que surgiu como uma faisca de pensamento. ?Reclamar? e ?lamentar? s?o duas palavras muito distintas em sua aplicac?o e uso e que podem definitivamente mudar o cotidiano de muita gente por ai.
Reclamamos quando achamos que esta errado e queremos mudanca. Lamentamos quando n?o tem mais conserto ou soluc?o. N?o tem mais jeito. Para quem reclama, ainda existe um jeito. Para quem lamenta, n?o mais. ?Reclamar? e buscar uma soluc?o. Uma, pelo menos. ?Lamentar? acontece quando todas as soluc?es ja se foram e se encontram esgotadas. Ou melhor, nem se encontram mais. ?Reclamar? e procurar e n?o achar. ?Lamentar? e nem tentar achar. Lamentac?es servem como ponto final. Reclamac?es s?o virgulas, a procura de um texto melhor.
Reclamamos justamente para n?o termos que lamentar no futuro. Reclamar com educac?o e um grande e forte traco de consciencia do reclamante. Importante mesmo e aprendermos a reclamar de nos mesmos. Um consumidor consciente reclama. Mas um consumidor consciente e, acima de tudo, um consumidor educado. Educac?o, consciencia e reclamac?es s?o conceitos relacionados em cadeia.
Mas ate para fazer auto-critica e preciso ter educac?o, no sentido mais trivial das boas maneiras. Ser rude consigo mesmo n?o vale. N?o vale arrombar portas. Reclamar educadamente traz a boa oportunidade de se perguntar: ?E agora??. Nessa possibilidade de transformac?o, esta a possibilidade de melhoria. Reclamamos com nossos filhos na tentativa de educa-los. N?o desistimos deles. Sen?o, restaria apenas lamentar.
Feliz daquele que reclama com educac?o. Feliz daquele que reclama de si proprio para si proprio. Feliz daquele que consegue abrir ou fechar portas conscientemente e provar que e mestre de si. Triste daquele a quem so resta lamentar porque n?o foi educado. A Educac?o nos revela que reclamar da inexistencia de portas e como lamentar. Os oculos magicos da educac?o nos fazem, pelo menos, ver portas que nem estavam la e, se estavam, mais nos pareciam grades.
E n?o vale reclamar da vida. Ai e so lembrar de Mark Twain e de sua frase. ?Tudo pode acontecer hoje?. E preciso viver intensamente para que n?o precisemos nem reclamar da vida, nem lamentar a vida. Reclamar polidamente sobre o produto n?o-conforme que n?o esta bem polido, reclamar carinhosamente para nosso par que n?o nos tem dado carinho, reclamar com o amigo que amigavelmente esquece de nos ligar. Reclamar e buscar a soluc?o do produto quebrado, do carinho enrolado e da amizade amassada. Mas, ao reclamar, queremos dizer a empresa, ao nosso par e ao amigo que ainda queremos dar a eles todos uma chance. Ainda os queremos. Reclamo e clamo por um mundo reclamante e educado. Isso lembrara a todos de suas func?es. Funcionarios e chefes, colaboradores e colaborados, casais e pares, amigos e amigas, alunos, alunas e mestres.
Espero que meus pupilos e minhas pupilas ajam com sobriedade ao utilizar o conhecimento que herdei para eles e por eles. N?o quero nem desejo que usem o que eu ensino a eles para puxar o tapete nem o saco de ninguem. Coisa feia. Puxar o saco doi e puxar o tapete machuca. Olhar pela fechadura vale apenas para agucar a vontade de saber mais. Desejo que meus alunos e alunas conquistem as recompensas que se escondem por detras de portas impregnadas de virtude. Qual e o premio que se obtem quando se escolhe uma porta virtuosa de talentos? Portas existem para proteger o que por detras delas esta contido ou para testar aquele que ousa entrar.
Li uma vez num escrito de meu pai que ?todo homem publico deve estar sujeito a qualquer tipo de provocac?o?. Sou professor particular, sou professor universitario, sou arte-educador, sou educador, sou pesquisador. Nada disso me livra de ser um ?homem publico?. Aquilo que dizemos em publico se torna publico para o publico. Mas nossa opini?o pode ser facilmente distorcida por um aluno sonolento.
N?o compete a mim saber o que meus alunos far?o com aquilo que ensino a eles. Sera? Fico cheio de duvidas pois a ac?o de professores faz eco na alma e na memoria. Na memoria da alma. Preciso repensar. Ja estou convencido de que a educac?o n?o e uma porta, mas uma chave. Chave-Mestra.
O que mais me fascina e que na dinamica de um so dia e de uma vida inteira, todos nos sempre vamos dormir sabendo algo mais do que quando levantamos na manh? do mesmo dia. Todos os dias de nossas vidas acumulam saber. Acumulam saber em nos. Mesmo sem sabermos quem somos. Mesmo sem saber como sera o dia.
Isso e educac?o: saber que um dia pode ser a diferenca visivel mais invisivel entre n?o-saber e passar a saber. Um dia, assim como uma porta, pode esconder a sabedoria de uma vida inteira. Ou uma vida inteira pode passar a ter sentido pela sabedoria de um simples dia. Uma simples vida, e um dia inteiro. So para saber. Portas escondem aquilo que protegem. Portas protegem aquilo que escondem. Portas nos desafiam.
E tudo isto esta por detras de uma porta que sequer sabemos, muitas vezes, abrir. Nem todos possuem a chave. E mesmo aqueles que possuem a chave, muitas vezes n?o sabem como abrir tais portas. Portas que abrimos poder?o, um dia em que soubermos mais, serem fechadas. Mas fechadas por nos mesmos. Esta e a diferenca: ter consciencia de que somos carcere e carcereiro de nosso proprio saber.
Por detras daquela porta, talvez esteja a possibilidade de um futuro sem cara de passado. Futuro passado a limpo. N?o passado passado a limpo. Afinal, so e possivel passar o passado a limpo no futuro. Infinitas possibilidades nos aguardam. Aparentemente, a educac?o pode acontecer hoje.
E economista e professor e autor do livro Mais Textos: uma vis?o sobre a Educac?o