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Retenção de talentos
Josiane Benedet

“O que segura um professor numa escola é a boa remuneração e o bom ambiente.” A afirmação é de Victor Mirshawka, mestre em Estatística Aplicada, diretor cultural da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e autor de livros como Qualidade na criatividade e Gestão criativa.

Em entrevista concedida para a revista Profissão Mestre, Mirshawka fala sobre a importância do capital intelectual e mostra o caminho para as escolas reterem seus melhores professores.

Profissão Mestre – Como é constituído o capital intelectual de uma escola?
Victor Mirshawka – O capital intelectual é constituído dos seguintes elementos:

  • Os ativos de conhecimentos depositados nas pessoas (capital humano), por isso uma instituição de ensino (IE) deve recrutar os melhores mestres.
  • Os ativos de conhecimentos sistematizados explicitados ou internalizados na IE (capital estrutural), além da sua “cultura organizacional”.
  • Os ativos de conhecimentos acumulados pela IE graças às suas relações com agentes do entorno (capital relacional), isto é, as parcerias com outras instituições e comunidades.
  • Os ativos de conhecimentos acumulados pela IE em termos de processos, métodos de ensino, formas de fazer e pesquisar, solução de problemas (capital organizacional).
  • Os ativos capazes de ampliar os conhecimentos, isto é, de promover a imaginação e a criatividade (capital de inovação).

    Os procedimentos e métodos de controle de processos escolares (capital de procedimentos).

PM – O que são quociente de sinapse, quociente intelectual e quociente
emocional?

VM – O quociente intelectual (QI) é o resultado do teste que foi inventado por Alfred Binet (médico francês) e aperfeiçoado mais tarde, no início do século XX, por Lewis Terman (psicólogo da Universidade de Stanford, na Califórnia). Para Terman, a inteligência era a habilidade de raciocinar abstratamente, ou seja, ela não diz respeito apenas ao conhecimento dos fatos, mas à habilidade de manipular conceitos. O QI mede a inteligência racional, isto é, resolver problemas lógicos ou estratégicos.

Já o quociente emocional (QE) deve-se ao trabalho do psicólogo norte-americano Daniel Goleman, que demonstrou que o sucesso de uma pessoa depende de pensamentos que fazem as pessoas ter empatia, compaixão, raiva, etc., daí a sua habilidade de reagir adequadamente à dor ou ao prazer. A inteligência emocional é a capacidade e a disposição que cada pessoa tem de agir.

Tony Buzan, Danah Zohar e Ian Mitchell afirmam que a inteligência tem uma outra dimensão importante, que é a espiritual, ou seja, temos um quociente de sinapse (QS).

É por meio do QS que o ser humano compreende mais profundamente as situações, os significados da vida, da morte, da educação, entre outros, assim como os valores mais profundos da civilização.

É o QS que mede o quanto uma pessoa é criativa e se ela está apta para entrar no “jogo do infinito”.

PM – De que maneira eles podem ajudar a escola a cuidar de seu capital intelectual?
VM – A curto prazo, tanto numa IE como no mundo dos negócios, o que mais se utiliza é o QI. Esse é mais técnico, do que emocional, físico ou espiritual.

Infelizmente, o capital intelectual e a administração do conhecimento se impuseram mais nesse nível. Porém, as IEs têm de lidar com o capital humano num nível profundo, envolvendo-se mais com o desenvolvimento das relações intra e interpessoais. No século XXI, dar um incremento maior às redes de trabalho e aos relacionamentos é o que faz crescer o capital social da IE e por extensão o seu QS.

PM - Como estimular a formação desse capital intelectual?
VM- Através de uma nova disciplina denominada gestão de conhecimento, voltada principalmente para o desenvolvimento e disseminação do capital intelectual.

PM – É possível medir o potencial intelectual de uma escola? De que forma?
VM – Acredito que uma grande medida é feita através das diversas publicações dos seus docentes, bem como as pesquisas desenvolvidas numa IE.

Sem dúvida, quando se chega ao patamar de ser uma instituição de ensino superior (IES) que possui ganhadores de prêmios, por exemplo o Nobel – como acontece nas universidades de Harvard, Humboldt, Oxford, Cambridge, etc. –, não há dificuldade de declarar que esta escola é possuidora de um relevante capital intelectual.

PM – Como identificar profissionais capazes de fazer a diferença nas instituições de ensino?
VM – Realmente esse é o tema que envolve ter competência na identificação, captação, seleção e retenção de talentos. Uma forma original é submeter os candidatos a alguns testes que medem a sua inteligência, as suas emoções e a sua capacidade criativa.

PM – Como reter o capital intelectual na escola?
VM – Não é nada fácil segurar profissionais talentosos em qualquer organização. Um exemplo típico que temos hoje é o êxodo de esportistas dos países menos desenvolvidos para os que têm mais recursos. O mesmo acontece com as IEs, em particular as IESs privadas, que devem fazer grandes malabarismos, pois os seus professores mais talentosos acabam se transformando em palestrantes e consultores, recebendo uma remuneração que as IESs não têm condição de pagar.

É óbvio que o que segura um professor numa escola é a boa remuneração e o bom ambiente.

No caso de um curso superior, podem ser criados novos campos de atuação dos seus profissionais para envolvê-los em cursos especiais de pós-graduação como os MBAs, que são melhor remunerados, ou ainda participar de seminários e workshops organizados pela instituição.

Uma outra forma é atraí-los para cargos administrativos, transformando-os em coordenadores, diretores de faculdades, etc. Ou ainda, remunerar pelos resultados de suas publicações e pesquisas.

PM – As pessoas que trabalham em uma empresa são o próprio cérebro dela. É possível reter o conhecimento de um professor depois que ele tiver ido embora?
VM – Justamente para isso que está se investindo na Gestão do Conhecimento; para reter um pouco do que está na cabeça dos profissionais talentosos. Porém não dá para armazenar tudo, já que um professor talentoso, ao sair de uma instituição, leva consigo o seu cérebro.

PM – No seu artigo “A Importância do Capital Intelectual”, o senhor diz
que o profissional do século XXI precisa colocar o trabalho acima do ego.
Como fazer com que a competitividade das pessoas não interfira no aprimoramento
da escola como um todo?

VM – É vital que numa organização existam claramente declarados sua missão, visão e seus valores em torno dos quais se possa conseguir a cooperação, o alinhamento e a integração de todos que trabalham em uma instituição de ensino. Caso contrário, serão constituídos nichos que levarão as pessoas de alguma forma ao conflito. Mas de fato é muito difícil gerenciar as pessoas criativas, pois elas, normalmente, têm um procedimento que se pode classificar – no mínimo – de inesperado e não disciplinado.

PM – O erro faz parte da aprendizagem. Existe uma maneira de desbloquear
os profissionais de modo que eles ousem mais?

VM – É preciso não ter medo de errar, porém é necessário também saber aprender com os erros para não cometê-los mais do mesmo jeito. As pessoas vão sempre errar devido ao desconhecimento, a distração, a pressão do tempo, etc. Uma pessoa precisa de autonomia para não ter medo e saber que não será punida se errar (caso não tenha sido de propósito). O essencial é não perder a confiança em si e ter a coragem de ir em frente.

PM – Quais as competências que um professor deve ter para ser um profissional talentoso?
VM – Para ser um grande educador, principalmente nas IESs, os professores devem ensinar aos seus aprendizes, e a eles próprios, as seguintes competências:

a) Saber lidar com as pessoas.
b) Ter uma grande habilidade para comunicar e influenciar.
c) Incutir nos seus alunos e no seu próprio trabalho a aptidão para saber prevenir e resolver problemas, bem como ter as condições de alcançar resultados.
d) Ser mestre na autogestão, que inclui ter autoconfiança, obtenção da credibilidade, flexibilidade, fluência (características das pessoas criativas) e eficácia na gestão do seu estresse.

PM – Saber relacionar-se é fundamental. Quais são os valores que o profissional deve cultivar para obter sucesso na carreira?
VM
– Acredito que ter um grande network (rede) de relacionamentos é vital para desempenho eficaz de um profissional. No tocante, particularmente, às relações interpessoais, é imprescindível saber trabalhar em equipe, transitar com desenvoltura na diversidade, saber implementar mudanças, inovações, criações e ser mestre na comunicação oral, escrita e persuasiva.








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