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282004
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Didatica

Ensinar tem cheiro de oficina
Marcos Meier

Quando eu tinha cinco anos de idade, costumava ir a oficina de meu avo e explorar os mais intrigantes objetos. Ele era um sapateiro. N?o daqueles que, heroicamente, vivem a custa de pequenos consertos em botas ou sapatos; ele os construia do couro bruto ate a ultima pincelada de tinta preta. Eu sentia o cheiro do couro, da tinta, da cola e do po. Com cinco anos de idade, a imagem de um homenzarr?o de avental de couro e uma faca afiada na m?o impunha muito respeito. Mostrava-me o couro cru sobre o balc?o, os moldes, os cortes, as formas, as maquinas de lixar que ele proprio inventara e o processo de fabricac?o ate o produto final sobre a prateleira.

Mas n?o era essa imagem rude que me fascinava. Era seu jeito carinhoso de pegar-me no colo, abrir um jornal e explicar com uma paciencia enorme o som de cada silaba e o nome de cada letra. N?o havia uma didatica especializada, n?o havia nenhum metodo pedagogico especifico, mas fui alfabetizado. Aprendi a ver o mundo inteiro atraves daquelas paginas enormes suspensas no ar por m?os calejadas, rudes, asperas.

O que fez a diferenca? Por que ainda hoje lembro de sua voz, de suas correc?es e de seus elogios? Porque havia amor. As botas cano alto, os sapatos de salto ou o meu processo de alfabetizac?o recebiam uma especie de atenc?o que so existe naqueles que amam. Essa marca carrego ainda hoje. Lembro-me do carinho, da dedicac?o, das broncas e dos elogios.

Hoje meu jeito de ensinar esta impregnado pela memoria de meu avo. Provoco meus alunos, aponto falhas, elogio seus progressos e acima de tudo, respeito-os.

Quando leciono, provoco reflex?es, assumo o argumento contrario e luto por ele ate ser esmagado pela opini?o bem fundamentada de meus alunos. Faco o contrario tambem. A sintese e construida por todos nos.

Quando apresento um conhecimento ja elaborado por um autor, vou trocando ideias com meus alunos para que esse conhecimento possa ser incorporado, ligado, relacionado aquilo que eles proprios ja construiram, possibilitando-lhes a aprendizagem significativa como diz o educador David Ausubel.

A maieutica socratica em que uma ideia se faz nascer e em seguida e lapidada por meio de dialogo argumentativo e o tom de minhas conversas com os alunos.

Leciono em cursos de pos-graduac?o. Como trabalho final, os alunos precisam construir um texto. Escolhem o tema, a forma de desenvolver o artigo, as obras a serem pesquisadas, o problema a ser levantado e a hipotese a ser defendida ou negada. Esses alunos tem a possibilidade de criar, de serem autores. Em suas proprias vidas e isso que precisam constantemente fazer. Quando desistem desse projeto, tornam-se escravos da midia, da sociedade capitalista, da ostentac?o dos bens materiais, da moda e do consumismo em detrimento dos valores humanos de solidariedade, amizade, tolerancia e de luta por igualdade e justica social.

Entretanto, surgem alunos que n?o "aderem" ao processo. Preferem aulas expositivas nas quais tudo e sintetizado e explicado de forma que possam, passivamente, receber as informac?es e anota-las pensado que suas anotac?es, uma vez memorizadas, podem ser transformadas em notas. Triste realidade.

Os alunos que aderem ao processo s?o diferentes. S?o autores de sua propria historia, como diria Paulo Freire. Assim, o desafio de alcancar os alunos passivos torna-se maior. E preciso dizer "n?o importa a nota, o que voce veio fazer aqui?" , "De que forma posso lhe ajudar?". Enfim, e preciso coloca-los no colo, abrir um jornal e carinhosamente ajuda-los a entender o mundo. Ajuda-los a perceber que n?o s?o as letras que importam, mas o que elas dizem. De vez em quando, uma bronca, uma provocac?o, uma pergunta para guardar. Outras vezes, e preciso mostrar o couro cru sobre o balc?o e a bota de cano alto na prateleira, deixando que a imaginac?o preencha o espaco entre eles.

Meu avo faliu. A industria de calcados aprendeu a fazer sapatos em serie e a diminuir os precos. Ninguem mais queria suas botas e seus sapatos. Preferiam tenis ou sapatos que logo pudessem ser substituidos por outros mais modernos, "da moda". Entretanto, meu avo jamais foi um fracassado. Ele teve sucesso numa das maiores e mais significativas miss?es: educar.






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