Que professor nunca ficou uma aula inteira escrevendo no quadro negro? Ou sentado por horas corrigindo provas? Ou, ainda, no computador preparando as próximas aulas? Certamente dez entre dez professores irão responder sim a essas perguntas. E é por isso que as doenças causadas pela repetição de movimentos são queixas bastante comuns entre os professores.

Existem dois grupos de doenças nessa categoria: as Lesões por Esforço Repetitivo – LER – e o Distúrbio Osteomuscular Relacionado ao Trabalho – DORT. “As LER são as lesões por esforço repetitivo, causadas pelas atividades do dia a dia, podendo ser no trabalho, nas horas de lazer e, inclusive, durante a prática esportiva. Já os DORTs são as doenças causadas por movimentos executados durante a atividade profissional”, explica Maria Cândida Luzo, terapeuta ocupacional do Instituto de Ortopedia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP).

Hoje, utiliza-se mais o termo DORT ao se referir às lesões causadas por atividades de trabalho. Essas doenças atingem principalmente músculos, nervos e tendões das mãos e dos braços. Em razão da sobrecarga do sistema musculoesquelético, provocam dor e inflamação podendo, em casos mais crônicos, alterar a capacidade funcional da região. Algumas das disfunções mais comuns são tendinite, bursite, Síndrome do Túnel do Carpo, Síndrome do Pronador Redondo, mialgias, etc.

No dia a dia do professor algumas atividades têm características repetitivas que podem prejudicar a saúde, caso sejam feitas de forma errada ou por muito tempo, como carregar muitos livros, executar atividades com os ombros em um ângulo acima de 90º ou permanecer muito tempo sentado. “Não há uma definição de tempo para execução de atividades de maneira segura, pois depende de características individuais, inclusive do condicionamento físico. A lesão ocorre depois que a musculatura entra em fadiga e passa a reagir às agressões que está sofrendo”, explica a terapeuta ocupacional.

Dessa maneira, é fundamental conhecer o limite do seu corpo. Assim, quando necessário, você saberá que é hora de parar a atividade e deixar que a musculatura se recupere. “Fazer alongamentos enquanto lê na tela do computador, observar a postura enquanto corrige as provas e escolher um ambiente adequado para as correções são alguns cuidados simples e necessários”, orienta Maria Cândida.

Afastamento

Para caracterizar uma doença ocupacional, o médico irá realizar um diagnóstico relacionando as lesões às atividades realizadas. O fisioterapeuta do Trabalho e diretor do Serviço Especializado em Fisioterapia do Trabalho (Sefit), Alison Klein, explica que os DORTs são considerados ocupacionais e que, muito rapidamente, podem evoluir para casos que necessitem afastamento e até incapacitação. “Em algumas situações, após três ou quatro meses de trabalho em condições inadequadas, os sintomas já podem aparecer. E, em casos crônicos, e quando a pessoa não busca ajuda profissional e tratamento, seis ou sete meses podem ser suficientes para que a pessoa fique incapacitada de voltar ao trabalho”, alerta.

A prevenção, explica o especialista, é a única maneira comprovada de evitar as doenças do grupo DORT. “Programas de prevenção de fisioterapia do trabalho, que melhoram a condição de trabalho e que oferecem ferramentas de prevenção laboral são maneiras simples e eficientes de cuidar da saúde no trabalho.”

Pesquisa

Uma pesquisa realizada pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) identificou que cerca de 30% dos professores apresentam tendinite, bursite ou dor muscular. A presidente da Apeoesp, Maria Izabel Azevedo Noronha, destaca que a queixa mais comum entre os professores é em relação ao grande número de provas e trabalhos que eles têm que corrigir. “Alguns professores chegam a lecionar para 600, 700 estudantes”, explica.

A pesquisa apontou ainda que, dos professores que apresentaram as doenças, 59% não fazem acompanhamento médico regular. “Uma das razões é a falta de tempo causada pelo acúmulo de trabalho. Além disso, a Lei 1041/2008 limitou o direito às chamadas ‘faltas médicas’ para apenas seis ao ano, o que dificultou ainda mais a continuidade de tratamentos”, comenta Maria Izabel.

Ela ressalta que um fator fundamental para a prevenção dessas doenças seria a implantação da composição da jornada de trabalho prevista na Lei 11.738/2008 (Lei do Piso Salarial Profissional Nacional), que destina pelo menos 33% das horas de trabalho semanais do professor para as chamadas atividades extraclasse. “Se implantada, essa jornada permitirá ao professor corrigir provas e trabalhos e realizar outras tarefas com menos pressa e ansiedade, minimizando a ocorrência de muitas doenças que hoje acometem a nossa categoria”, considera.

Vítima da Síndrome do Túnel do Carpo

Em 2005, Regina Torres, que é professora do Colégio Estadual Protásio de Carvalho, de Curitiba (PR), começou a sentir formigamento e dor nas mãos. Quando procurou um médico surpreendeu-se com a gravidade do problema: estava com a Síndrome do Túnel do Carpo, uma consequência dos movimentos repetitivos em sala de aula. “As dores eram constantes e o formigamento acontecia mais à noite, durante o sono. Com o passar do tempo, passei a sentir desconforto e perda de força”, conta.

O presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão, Anderson Vieira Monteiro, explica que a Síndrome do Túnel do Carpo é uma condição bastante frequente no punho que acomete, principalmente, mulheres de mais de 40 anos. “O túnel do carpo é um tubo inelástico por onde passam os tendões e o nervo que dá sensibilidade aos dedos. A camada que envolve esse túnel produz um líquido que irá lubrificar essas estruturas durante o movimento. O que provoca a compressão do nervo (a síndrome) é uma hipertrofia desta camada quando inflamada”, detalha.

A condição da professora agravou-se com a realização das atividades de seu dia a dia: “carregar livros ou escrever no quadro eram atividades quase impossíveis de realizar em razão da dor”. Com a persistência dos sintomas foi necessária a realização da cirurgia, que trouxe, a princípio, um resultado satisfatório. Entretanto, hoje, três anos após o procedimento, o problema voltou a incomodar. “Na mão direita, que está operada, sinto um pouco menos de dor, porém tenho formigamento. Na mão esquerda sinto muita dor, formigamento e paralisação dos movimentos.” Com base em sua experiência, Regina aconselha aos colegas a cuidar melhor das mãos, evitando carregar peso e repetir demasiadamente certos movimentos, além de diversificar as atividades em sala de aula, alternando as diversas tarefas.

Prevenção

A terapeuta ocupacional Maria Candida Luzo e o fisioterapeuta do Trabalho Alison Klein dão algumas orientações para os professores:

  • Cuide de seu corpo realizando atividades físicas regularmente;
  • Use roupas e calçados confortáveis para trabalhar;
  • Não sobrecarregue o seu dia, prefira distribuir as tarefas na semana. Dessa forma, o volume de objetos que você terá que carregar irá diminuir significativamente;
  • Nas horas de lazer, faça o que gosta. Dê preferência para as atividades que usem movimentos diferentes daqueles que você faz todos os dias;
  • Não use o computador nos finais de semana. Se precisar usar, controle o tempo;
  • Nosso corpo foi feito para se mover, por isso não fique muito tempo parado;
  • Quando estiver escrevendo no quadro, a cada 30 minutos faça intervalos de 10 minutos;
  • Quando estiver sentado corrigindo provas ou preparando aulas o ideal é fazer pausas de 10 minutos a cada 40 minutos.

 

Matéria publicada na edição de novembro de 2012 da revista Profissão Mestre. 

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